Quando a sociedade começa a funcionar como uma máquina

Existe uma reflexão que me acompanha há muito tempo. Talvez ela tenha surgido justamente porque sou autista e sempre observei o mundo de um jeito um pouco diferente da maioria das pessoas.

Enquanto muitos simplesmente vivem a rotina, eu costumo primeiro observar. Gosto de identificar padrões, perceber mudanças e tentar compreender por que a sociedade funciona da maneira como funciona. Foi assim desde a infância, muito antes de eu descobrir meu diagnóstico de autismo. Mais tarde, quando estudei Ciências Sociais na Universidade Estadual de Londrina (UEL), percebi que muitos dos questionamentos que eu fazia já haviam sido formulados por grandes sociólogos.

Hoje, ao observar a sociedade contemporânea, tenho a impressão de que ela e a tecnologia estão se tornando cada vez mais parecidas. Não estou falando apenas do uso de celulares, computadores ou inteligência artificial. Refiro-me à forma como pensamos, trabalhamos, nos comunicamos e até organizamos nossa vida. Aos poucos, a sociedade parece estar adotando a mesma lógica das máquinas: rapidez, eficiência, automação e respostas imediatas.

Essa percepção me faz lembrar de Émile Durkheim. Durante a graduação, aprendi que ele chamava de fatos sociais aquelas formas de agir e pensar que exercem influência sobre todos nós. Naquela época, estudávamos exemplos clássicos. Hoje, percebo que estar conectado também se tornou um fato social. Responder mensagens rapidamente, acompanhar redes sociais, participar de grupos e permanecer disponível quase o tempo todo deixou de ser apenas uma escolha individual. Tornou-se uma expectativa da própria sociedade.

Outro autor que frequentemente volta à minha memória é Max Weber. Weber estudou o processo de racionalização da sociedade moderna. Quanto mais observo os algoritmos organizando informações, os aplicativos controlando rotinas e a inteligência artificial tomando decisões, mais compreendo a atualidade de suas ideias. Nunca estivemos cercados por tantos sistemas capazes de organizar nossa vida de forma eficiente. A questão é que eficiência nem sempre significa humanidade.

Também não consigo deixar de pensar em Karl Marx. Se a Revolução Industrial modificou profundamente a organização do trabalho, a revolução digital está modificando praticamente todos os aspectos da vida social. Hoje, informação também produz riqueza. Dados possuem valor econômico. Grandes plataformas digitais acumulam poder e influenciam comportamentos em uma escala que Marx provavelmente consideraria uma nova fase do capitalismo.

Anos atrás, quando eu estudava esses autores na UEL, confesso que enxergava muitas dessas teorias como explicações da sociedade do século XIX. Hoje penso diferente. Os contextos mudaram, mas muitas perguntas continuam exatamente as mesmas. O ser humano continua organizando a sociedade, produzindo tecnologias e, ao mesmo tempo, sendo transformado por elas.

As reflexões de Zygmunt Bauman também fazem muito sentido para mim. Vivemos em uma época extremamente rápida. Notícias envelhecem em poucas horas. Opiniões mudam constantemente. Relações humanas parecem cada vez mais frágeis. Muitas vezes estamos conectados com centenas de pessoas e, ao mesmo tempo, experimentamos uma sensação de isolamento.

Nesse cenário, as ideias de Manuel Castells ajudam a compreender que a sociedade passou a funcionar em rede. Não são apenas computadores que estão conectados. Empresas, escolas, governos, hospitais e pessoas compartilham informações continuamente. A conexão tornou-se parte da própria estrutura da sociedade.

Como autista, essa realidade desperta sentimentos contraditórios. A tecnologia facilitou muitas áreas da minha vida. Ela me permite estudar, escrever, pesquisar, trabalhar, produzir conteúdo e compartilhar reflexões que talvez nunca chegassem a tantas pessoas pelos meios tradicionais. Em muitos momentos, ela diminui barreiras que as interações presenciais costumam impor para quem está no espectro autista.

Mas também percebo seus limites. Nenhum algoritmo substitui empatia. Nenhuma inteligência artificial consegue reproduzir plenamente aquilo que existe nas relações humanas construídas com respeito, paciência e sensibilidade. A tecnologia aproxima pessoas fisicamente distantes, mas nem sempre consegue aproximar corações.

Talvez o maior desafio do nosso tempo não seja criar máquinas mais inteligentes. A humanidade demonstra todos os dias que possui capacidade para isso. O verdadeiro desafio é fazer com que nosso desenvolvimento tecnológico caminhe junto com nosso desenvolvimento humano.

A Sociologia me ensinou que nenhuma tecnologia surge isoladamente. Toda tecnologia nasce dentro de uma sociedade e carrega seus interesses, suas desigualdades, seus valores e seus conflitos. Da mesma forma, cada inovação modifica a maneira como vivemos e nos relacionamos. Sociedade e tecnologia transformam uma à outra continuamente.

Por isso, quando afirmo que a sociedade está começando a funcionar como uma máquina, não estou culpando a tecnologia. Estou fazendo um convite à reflexão. O risco não está nas máquinas aprenderem a agir como seres humanos. O risco está em nós, seres humanos, começarmos a agir como máquinas: acelerados, impacientes, automáticos e cada vez menos sensíveis.

Talvez minha forma de observar o mundo seja diferente justamente porque sou autista. Durante muito tempo enxerguei isso apenas como uma dificuldade. Hoje percebo que também pode ser uma maneira diferente de compreender a sociedade.

E talvez seja exatamente essa a maior contribuição da Sociologia: ensinar que, antes de aceitar o mundo como ele é, vale a pena parar, observar e perguntar por que ele se tornou assim.

E você?

Você acredita que estamos usando a tecnologia ou ela está, aos poucos, moldando a maneira como pensamos, nos relacionamos e vivemos?

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Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. 24. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2022.

DURKHEIM, Émile. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX, Karl. O Capital: Crítica da Economia Política. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

WEBER, Max. Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Brasília: Editora UnB, 1999.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

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No Olhar Atípico Social, cada reflexão nasce da observação. Compreender a sociedade é o primeiro passo para transformá-la. Até a próxima reflexão.

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